A história tem fundamentos reais, aconteceu na época da escravidão. O nome da viscondessa ficou em segredo, mas o acontecimento ganhou repercussão nas rodinhas dos abolicionistas nas ruas estreitas de Salvador.
“A senhora viscondessa possuía uma escrava mulatinha clara, que desde o berço criara com mimos. Segredavam-se até que era filha do marido. Deu-se apurada educação, mandando-lhe ensinar piano e prendas domésticas. Andava bem vestida, bem calçada, fazendo e desfazendo em casa e ninguém dizia ser sua condição de escrava. Mas a vida está tão cheia de emboscada do destino!..Encontravam-se sob a sua guarda às jóias da senhora viscondessa, eram muitas e valiosíssimas. De uma feita, preparando-se a viscondessa para ir a um baile de grande acontecimento ( chegada de estrangeiros) no qual ostentaria as suas mais custosas gemas, pediu à rapariga determinado saquinho de veludo, onde se encontravam os adereços que deveriam adorná-la naquela noite. Voltou a mulatinha anunciando não o haver encontrado, impossível diz a viscondessa. Quando da vez anterior, saíra com essas jóias, regressando à casa, colocando-as dentro do saquinho, deixando-o em cima do toucador ? Não o apanhara ? Observou-lhe a jovem, que em tal dia, nada encontrara sobre o móvel indicado, julgando até que, a senhora tivesse ido guardar às jóias em pessoa como da outra vez. Voltando a procurá-lo no cofre onde estavam todos os adornos da fidalga, fez-se
Acabou a viscondessa por desconfiar da cria. Nos seus aposentos reservados não entravam senão elas duas. Não havia meninos
Meses passaram, e chegou há três anos. Certo dia, incomodada com o barulho ensurdecedor que os ratos faziam no forro da casa, a viscondessa ordenou a um escravo que fosse ali proceder a uma limpeza. Retirou o negro um montão de trapos, ossos, espinhas de peixe, não sei quantas coisas mais, até calçados velhos e no meio daquele lixo todo estava o saquinho de veludo, logo o negro apressou-se em levar à sinhá (senhora) viscondessa. Ela quando viu ficou espantada, abrindo-o, encontrou sem faltar uma só das jóias que deram caso a infelicidade da mulatinha de sua estimação.
Profundamente culpada da clamorosa injustiça que cometera, entendeu de reparar o quanto mais rápido possível. Mandou um emissário procurar o atual dono da mulatinha, e pediu que ela viesse a sua presença. Chegou com o emissário a rapariga, suja, roupas em farrapos, descalça, cabelos em desalinho, acabada de sofrimentos morais e físicos em trabalhos rudes em que não fora acostumada; uma imagem que encheria de dó o mais incompreensível coração. Baixou o rosto perante a senhora, quem em dias idos, olhara como mãe, represando as lágrimas que rápida peregrinação subjetiva lembrou do seu feliz passado provocara, afim de não parecer que implorava misericórdia.
Então a viscondessa, referindo-lhe o achado do saquinho de jóias propõe comprá-la e alforriá-la, garantindo dar ao senhor o quanto este exigisse, e prometendo-lhe compensações e outras reparações do muito que sofrera sem merecer. Pois, aquela criatura que a dor exigiu com requinte inquisitório, encarou resolutamente a causadora da sua imensa desdita, os olhos a chisparam de altivo desdém, respondendo-lhe numa única palavra: Não ! E voltou a cumprir o seu negro fadário.”
(Fonte da narrativa de João da Silva Campos no seu livro: Tradições Baianas –Transcrito na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – nº 56 pág.475/476)
MEUS COMENTÁRIOS:
A viscondessa cega em sua vaidade, em seu egoísmo e no seu amor próprio ferido, não avaliou os sentimentos humanos e nem o seu lado tão cristã a qual devotara a Deus. Porque naquela época os portugueses já vinham de Portugal com o fanatismo da religião
católica e não enxergavam o meio termo para aqueles seus subordinados escravos. Tudo o senhor ou senhora podiam fazer com os escravos e não existia nenhuma lei de proteção para os cativos. A dor maior da escrava não foi a dor física, foi a dor moral que subitamente apareceu sem ela saber que existia. Com dignidade ela disse “NÃO” porque não poderia aceitar mais ver o seu algoz em lembranças dos sofrimentos que certamente voltariam a ter dia a dia. Preferiu compartilhar com seus irmãos de infortúnios.
Nem todos sabem fazer justiça após seus próprios erros. A consciência revela em cada um dois pesos e uma medida, que só pode ser avaliada por outra pessoa que seja sem mácula e com raras virtudes.
Álvaro B. Marques.
SSA, 30.08.2010