quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AS JÓIAS DA VISCONDESSA

A história tem fundamentos reais, aconteceu na época da escravidão. O nome da viscondessa ficou em segredo, mas o acontecimento ganhou repercussão nas rodinhas dos abolicionistas nas ruas estreitas de Salvador.

“A senhora viscondessa possuía uma escrava mulatinha clara, que desde o berço criara com mimos. Segredavam-se até que era filha do marido. Deu-se apurada educação, mandando-lhe ensinar piano e prendas domésticas. Andava bem vestida, bem calçada, fazendo e desfazendo em casa e ninguém dizia ser sua condição de escrava. Mas a vida está tão cheia de emboscada do destino!..Encontravam-se sob a sua guarda às jóias da senhora viscondessa, eram muitas e valiosíssimas. De uma feita, preparando-se a viscondessa para ir a um baile de grande acontecimento ( chegada de estrangeiros) no qual ostentaria as suas mais custosas gemas, pediu à rapariga determinado saquinho de veludo, onde se encontravam os adereços que deveriam adorná-la naquela noite. Voltou a mulatinha anunciando não o haver encontrado, impossível diz a viscondessa. Quando da vez anterior, saíra com essas jóias, regressando à casa, colocando-as dentro do saquinho, deixando-o em cima do toucador ? Não o apanhara ? Observou-lhe a jovem, que em tal dia, nada encontrara sobre o móvel indicado, julgando até que, a senhora tivesse ido guardar às jóias em pessoa como da outra vez. Voltando a procurá-lo no cofre onde estavam todos os adornos da fidalga, fez-se em vão. Remexeu-se a casa de cima para baixo, não ficando um só lugar sem conferir. Mas o decantado saquinho de veludo não foi encontrado.

Acabou a viscondessa por desconfiar da cria. Nos seus aposentos reservados não entravam senão elas duas. Não havia meninos em casa. Deixara as jóias sobre o tocador, era noite alta. Se as jóias tivessem amanhecido no mesmo lugar teria visto. Quem pois, tiraria dali em tais circunstâncias ? Logo tinha a rapariga que lhe dar conta dos seus brilhantes, dos seus rubis, e outras pedras de alto valor. Chamou-a, metendo-a em confissão. A moça, custando a acreditar na atitude da senhora, ficou atônita, a principio hesitando, mesmo em responder à acusação da senhora, mas bem depressa cobrou ânimo, negando firmemente que houvesse sonegado às jóias. A viscondessa, porém, estava irredutível. As suas pedras, o seu ouro, dizia , haviam sido desencaminhados pela cria de estimação, não valendo a esta nem pratos, nem os mais veementes apelos ao coração da senhora, á estima que a mesma dedicava. Mandou-lhe a fidalga aplicar uma dúzia de bolos, bem puxados, com as mãos postas sobre uma mesa, que lhe deixara sangrando e inchadas, parecendo luvas grelhadas. Isso feito degradou-a para a cozinha, para o meio da escravaria, recomendando que a tratassem como sua parceira. E dias depois, para completar a punição, vendeu-a a um velhaco sádico que andava sempre à cata de peças novinhas para satisfazer seus interesses torpes. Do seu poder, passou a venda para outro senhor, que em maldade seria capaz de pegar corrida com o diabo. Nunca mais cessou seu infortúnio e de amaldiçoar o dia em que nascera, a tantos e tão duros maus tratos e humilhações viu-se submetida.

Meses passaram, e chegou há três anos. Certo dia, incomodada com o barulho ensurdecedor que os ratos faziam no forro da casa, a viscondessa ordenou a um escravo que fosse ali proceder a uma limpeza. Retirou o negro um montão de trapos, ossos, espinhas de peixe, não sei quantas coisas mais, até calçados velhos e no meio daquele lixo todo estava o saquinho de veludo, logo o negro apressou-se em levar à sinhá (senhora) viscondessa. Ela quando viu ficou espantada, abrindo-o, encontrou sem faltar uma só das jóias que deram caso a infelicidade da mulatinha de sua estimação.

Profundamente culpada da clamorosa injustiça que cometera, entendeu de reparar o quanto mais rápido possível. Mandou um emissário procurar o atual dono da mulatinha, e pediu que ela viesse a sua presença. Chegou com o emissário a rapariga, suja, roupas em farrapos, descalça, cabelos em desalinho, acabada de sofrimentos morais e físicos em trabalhos rudes em que não fora acostumada; uma imagem que encheria de dó o mais incompreensível coração. Baixou o rosto perante a senhora, quem em dias idos, olhara como mãe, represando as lágrimas que rápida peregrinação subjetiva lembrou do seu feliz passado provocara, afim de não parecer que implorava misericórdia.

Então a viscondessa, referindo-lhe o achado do saquinho de jóias propõe comprá-la e alforriá-la, garantindo dar ao senhor o quanto este exigisse, e prometendo-lhe compensações e outras reparações do muito que sofrera sem merecer. Pois, aquela criatura que a dor exigiu com requinte inquisitório, encarou resolutamente a causadora da sua imensa desdita, os olhos a chisparam de altivo desdém, respondendo-lhe numa única palavra: Não ! E voltou a cumprir o seu negro fadário.”

(Fonte da narrativa de João da Silva Campos no seu livro: Tradições Baianas –Transcrito na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – nº 56 pág.475/476)

MEUS COMENTÁRIOS:

A viscondessa cega em sua vaidade, em seu egoísmo e no seu amor próprio ferido, não avaliou os sentimentos humanos e nem o seu lado tão cristã a qual devotara a Deus. Porque naquela época os portugueses já vinham de Portugal com o fanatismo da religião

católica e não enxergavam o meio termo para aqueles seus subordinados escravos. Tudo o senhor ou senhora podiam fazer com os escravos e não existia nenhuma lei de proteção para os cativos. A dor maior da escrava não foi a dor física, foi a dor moral que subitamente apareceu sem ela saber que existia. Com dignidade ela disse “NÃO” porque não poderia aceitar mais ver o seu algoz em lembranças dos sofrimentos que certamente voltariam a ter dia a dia. Preferiu compartilhar com seus irmãos de infortúnios.

Nem todos sabem fazer justiça após seus próprios erros. A consciência revela em cada um dois pesos e uma medida, que só pode ser avaliada por outra pessoa que seja sem mácula e com raras virtudes.

Álvaro B. Marques.

SSA, 30.08.2010

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