quinta-feira, 20 de maio de 2010

AUSÊNCIA - Depoimento


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“Ausência eu sinto na voz".
Desde quando eu nasci. Logo depois, em poucos anos, meus pais descobriram que eu não falo.
Meus olhos vêem, analiso; as coisas, as cores, o belo e o feio.
Meus ouvidos ouvem, distinguem os sons e formalizam vozes distintas.
Minha voz, somente eu ouço em gritos e lamentações em sussurros abafados.
Em meu cérebro, estão armazenadas várias perguntas sem respostas. Porque ninguém sabe o que se passa dentro de mim. Minha voz é transformada em mímica para àqueles que percebem. E para àqueles outros que não entendem é para mim um sofrer.
Minha infância foi tumultuosa.
Tudo começou dentro de casa, vendo meu irmão falar e ser atendido. Eu quando brincava com ele, murmurava e apontava para o que eu queria. Com essa atitude foi que despertou nos meus pais o meu problema.
Quantas vezes ouvi a palavra mamãe ser dita por meu irmão e repetidas vezes pronunciada pela minha mãe a querer ensinar-me, ou mesmo meu pai. Era para mim um suplício, porque eu queria repetir a mesma palavra e não saía a voz. Via os olhos de meus pais marejarem de lágrimas. Só meu gesto de abraços e beijos confortava-lhes.
O tempo foi passando, no período escolar à convivência com outras crianças normais foram difíceis e necessários. Porém, foi nessa época que criei o interesse maior em aprender o que não sabia no meu lar. Criei necessidades de adaptações ao mundo externo. Até mesmo os professores têm dificuldades de ensinar aos deficientes mudos, não são preparados. Tive aulas em programas de recuperações fonológicas e a foniatria está melhorando o meu viver. Não acredito em falar corretamente, mas tenho certeza em comunicar plenamente. Meu caso é congênito.
Fui criada no meio de familiares católicos na qual tenho fé e duvidas. Ainda pergunto a Deus se eu mereço esse castigo ? Tenho o silêncio como resposta e milhares de outros exemplos conformados.
Segui a trajetória da vida, com esse pensar e novos aprendizados foram aplicados no meu dia a dia. Sou jovem, e dizem que sou bonita, tenho os mesmos pensamentos de outras garotas. Faço dos sonhos fantasias, fugas para não pensar na realidade.”
“ Todos eu compreendo e nem todos sabem compreender-me. Oh ! Que ironia... Essa ausência tenho que conviver eternamente. Vivo sem muita alegria, vivo sabendo ignorar o que passa com a minha limitação. Mas, sou consciente com o que eu quero. Quero levar uma vida normal, sem preconceitos e ser tratada com respeito de ser humano. Não é pedir muito, é somente ter a oportunidade para viver.”
Este depoimento acima, é uma narrativa sincera e emocionante de uma jovem que não quis identificar-se. Afinal, para que sabermos o nome. A dor não tem nome, se expressa em várias maneiras e em várias pessoas. Só àqueles que realmente sentém sabem a razão. É um clamor de tudo que o ser humano não quer.
Ao mesmo tempo, neste caso, acena para servir de parâmetros para os pais, professores e profissionais da área médica.

Temos que dar mais amor sem demonstrar piedade para o doente não sentir humilhado. Amor não é caridade é sentimento nobre acompanhado de todos os anseios de bondade do ser humano.

Ausência é a sensação de sentimento no vazio. É a falta da perda no presente. 
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Álvaro B. Marques
SSA, 08.11.2006

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