segunda-feira, 24 de maio de 2010

O CRIME QUE ABALOU VILA RICA - século XVIII

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O coronel Antonio de Oliveira Leitão, tipo físico avantajado, barbudo, cabelos longos, olhos grandes, rosto redondo, estava constantemente de cara amarrada. Não sabia o que um sorriso, que mais parecia um urso do que ser humano. Era feição normal do potentado de três séculos atrás, misto de bárbaro e cortesão.
Vamos contar essa história verídica ocorrida em Vila Rica – Minas Gerais:
Quando o coronel Oliveira Leitão, foi transferido vindo de São Paulo onde nascera. Já estava casado com D. Branca da Silva, senhora de linhagem ilustre como a sua e tem uma linda filha chamada Martha, que os historiadores pintam como um tipo de doçura e de beleza inigualável na Vila.
No lar do coronel, a convivência é permanentemente austero, ríspido, inclemente, como todos os lares ricos do passado. O riso é um crime, a alegria uma profanação, o amor uma calamidade.
É realmente uma aberração a história dos casarões abastados dos séculos XVII e XVIII. Havia a solidão obrigatória, a tristeza amargurada, a monotonia embrutecida, a severidade implacável que desorganizava a disciplina, o melindre de rigidez familiar aniquilando a ternura e a liberdade. Debaixo daquele imenso telhado rico, sofria-se mais que num cárcere ou num túmulo. Ser virgem era mais um motivo de cárcere ou convento mais disciplinar, tenha ou não vocação freiática, caso tenha perdido a virgindade por qualquer motivo. Tudo e todos conspiravam para tornar infeliz a donzela. Vigiavam-na como se espia a um ladrão, passo a passo como os de um criminoso. Fechavam-lhe o coração como se fecha o portão de uma chácara, à noite, para que os gatunos não entrem. As janelas dos casarões não se abriam para as moças virgens não tivessem ensejo de ver os homens que passassem lá fora; deixavam-se analfabetas, por toda a vida as donzelas, para que nunca soubesse decifrar as cartas dos pretendentes namorados.
Impulsos de sentimentos, amor, eram os delitos supremos da época. O coração das filhas era propriedades exclusivas dos pais, que eles dispunham como do gado dos currais ou das bestas de seus campos.
Uma tarde, Martha que chorava no seu quarto, veio até ao quintal estender na corta um lenço ensopado. O pai estava nos fundos da casa, entre a fresca de uma janela, olho aguçado, devorador, como o de um falcão de caça. O que lhe passa pela cabeça é um desvairamento. Aquele lenço, estendido ao sol, deve ser um sinal a Luiz de Gusmão, um aviso de amor, uma combinação, uma patifaria. Está manchada a honra de sua casa, está manchada a dignidade de seu nome! Desce numa fúria, num ímpeto, de punhal em punho, trepidando.
A interpelação é uma insensatez. A moça fica assustada da inesperada cena. Ele vê na vacilação a prova real, da culpa da filha. Devia-lhe ter passado pela mente, o episódio das festas de São Paulo, em 1712, quando de uma cutilada decepou o pescoço de um touro. Enlaça o corpo da filha e enterra-lhe o punhal, inteirinho, no coração. O sangue espirrou, esguichando pela parede e ao que dizem as crônicas, já certamente douradas pela lenda, lá na parede ficou por muitos anos, límpido vermelho, brilhante, por ser sangue inocente.
Oliveira Leitão não fugiu. É uma indignação para um nobre. Deixando o cadáver da filha numa poça de sangue, corre a entregar-se ao governador da capitania, o conde de Assumar.
A justiça remete-o para a Bahia, onde tinha as piores enxovias do país. Era famoso o Forte do Mar, o Nª. Sª Del Pópulo e o navio presídio o “Persiganga”. Corre o processo, o coronel é condenado à força.
Teve o coronel Oliveira Leitão, quando ás mãos lhe chegou á sentença que o condenava à força, levantou bem alto a voz de protesto. “Forca! não! na forca não morrerei!”. A corda da forca era para os vilões e ele era nobre, de nobreza “qualificada” e antiga. Homens da sua estirpe, da distinção, da sua linhagem, só em cadafalso e em cadafalso alto podiam morrer.
Eram realmente muito diferente de nós os tipos de homens do passado. Tinham na realidade outra mentalidade, outra fé, outra tradição, diríamos até outra alma. Felizmente, hoje não temos. O homem evoluiu para melhor viver.
Ao peso da ignomínia de assassino, amargurado pela morte da filha que ele já sabia inocente, com certeza roído de remorso e de arrependimento, metido em cárceres imundas, sem luz e úmidas. Desprezado e repelido, com sentença da morte sobre a cabeça, o coronel Oliveira Leitão, tem sangue frio para insistir, protestar e questiona afim de que lhe sejam dadas as regalias condigno à sua nobreza criminosa; está triste, está miserável, está desprezível, sem regalias. A troca da plebéia corda da forca pela lamina afiada da guilhotina, era o seu desejo. Eram sinistros no seu orgulho os homens daquele tempo.
O protesto do coronel subiu até El-Rei de Portugal. O que ele pedia era um direito. El-Rei lhe deu. Faleceu em 1721. Naquela época os reis ouviam sempre os apelos justos dos nobres, mesmo quando os mandavam matar...
NOTE BEM: Essa história foi extraída do livro: “ Bahú Velho” autor: Viriato Correia.
( roupas antigas da História Brasileira) pub. em 1927 – págs. 281/283 – SP)
É bom lembrar que foi transcrito e mantido o português da época, cópia fiel ao texto.
MEUS COMENTÁRIOS:
Até que ponto o homem leva o orgulho e a vaidade humana a transformar-se em besta. A história acima retrata bem esse quadro O homem na sua cólera esquece o principio elementar, vida. Mas, naquele tempo o nobre fidalgo não pensava assim. Seus hábitos, seus costumes, suas tradições eram pensamentos medievais. Até mesmo a religião Católica contribuía para esses pensamentos.
Para os homens daquela época, o sangue e o brasão era tudo de mais sagrado e valor que o possa ter. Não admitia a união oficial sem serem qualificados os brasões e suas ancestralidades. A rigor, o povo era plebe e os restantes fidalgos e nobres. Não se misturavam consangüinamente. No caso de filho homem também havia essa “qualificação”, só que para o homem caberia a expulsão da casa familiar e deserdado oficialmente.
O autor desse livro exagera muito o quadro pintado. Havia casamentos arranjados pelos pais, conforme seus interesses e geralmente com parentes. Dificilmente era por livre vontade dos noivos. A desobediência tornaria um castigo ou um internamento no convento.
O homem, hoje, vive dentro de uma sociedade mais mista e liberal. Permitindo que seus sentimentos sejam mais liberais possíveis. Não aceitam mais o sangue azul e brasões familiares como se fossem qualidades e poderes sociais. A evolução criou novos conceitos básicos para viver. O trabalho e suas qualificações, a inteligência criativa, o status individual e o amor à família acima de tudo. Sem isso, o homem não vive socialmente. Em todos os tempos, houve e haverá sempre homens capazes de infinitos gestos de amor, como também capazes de grandes loucuras individuais e coletivas.
Álvaro B. Marques
SSA, 30.08.2005

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