terça-feira, 25 de maio de 2010

O ÚLTIMO DESEJO

No nosso dia a dia, ouvimos relatos verdadeiros de pessoas com doenças graves e outras não tão graves. Porém, todas refletem um quadro alarmante na saúde pública. Mas, quando se trata de certos casos graves em que a nobre medicina não tem mais recursos, imploram a Deus a sua intervenção. O que não ocorre com a maioria dos médicos, quase sempre incrédulos na sua maneira de encarar às religiões. Mas o relato abaixo, revelado no depoimento de muita sensibilidade humana, requer mais do que uma reflexão. Não somente na ótica religiosa mais na própria medicina.

DEPOIMENTO DE UMA MÉDICA:

“Existirmos. A que será que se destina?”

“Em 2008 vivi muitas experiências assim como todo mundo vive.

Mas duas delas marcaram-me bastante. Duas crianças. Mateus, 13 anos com linfoma de mediastino sem possibilidade de tratamento. Jailton, 6 anos com cardiopatia grave só restando para ele um transplante cardíaco. Dois meninos, duas vidas que neste mundo nunca se cruzaram. Geralmente nos dias precedentes ao fim, as crianças ficam apáticas, não comem, dormem bastante. Perguntei a ambos o que queriam... Algo que eu pudesse dar a eles, uma vez que como pediatra eu nada mais poderia oferecer. Acho que perguntei mais por mim do que por eles. No fundo queria me sentir útil de alguma maneira. Primeira resposta: morangos. Segunda resposta: hambúrguer.

Morangos e hambúrguer. Era o que eles queriam comer.

Morangos e hambúrguer.

A gente passa um tempo enorme desejando tantas coisas. Materiais, emocionais, racionais, irracionais. A gente deseja, almeja, aspira, sonha. E nessa incansável busca encontramos ansiedade, aflição, decepção, tristezas. E quando conquistamos alguns desses desejos, inventamos outros e no fundo nunca estamos satisfeitos com o que temos. Mateus e Jailton queriam morangos e hambúrguer. Só, nada mais.

E fico me perguntando tantas coisas nesses momentos, repensando na vida, nos nossos desejos, nas nossas escolhas.

Este ano não quero fazer balanços, não quero desejar nada para ninguém... Quero viver mais um ano, feliz como sou agora. E quero que todos vocês vivam mais um ano. Felizes como são agora. E que Mateus e Jailton também estejam felizes com seus morangos e hambúrgueres sejam lá onde eles estiverem...”

A reprodução do texto acima é cópia fiel, conforme e-mail recebido em 25.11.2008

Acima encerra um lindo e triste depoimento, repito, com muita sensibilidade pessoal e dúvidas. Colocando cheque-mate na ciência e reabrindo espaço para uma antiga polêmica e longo debate entre a vida e a morte. O que sempre permaneceu questionado por pessoas que não aceitam a morte seja lá qual for á causa e outras que aceitam a morte como continuidade de outra vida que só muda o corpo físico. Já na parte da ciência médica a morte é uma conseqüência natural da vida e também fenômeno biológico.

A confissão da médica que acompanha o paciente no nascer e no viver da criança é tão verdadeiro que choca uma brilhante tese de doutorando.

Faço ainda mais esse comentário: A médica após sentir que não havia mais nada a fazer no ponto de vista médico, resolveu realizar o último desejo desses meninos, mas havia o ponto de vista Humano... Se todos que trabalham na área de saúde em seu dia a dia fizessem dessa forma, o tratamento seria muito mais humanizado e digno levando não só o conhecimento, mas o carinho, a atenção e principalmente o AMOR aos pacientes. Deve-se pensar muito no relacionamento entre médico e paciente, enfermeira e paciente para não perder a confiança.

Entende-se que o desejo suspira a vida. E nessa hora de dor e tristeza que a Fé em Deus vale mais como um grito no silêncio do hospital.

A medicina é uma profissão de sacrifícios nobres pela qual o médico é testemunho e juiz.

Amenize a dor de quem passa e faça o que queres que outro faça por você.

Álvaro B. Marques

SSA27.11.2008

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