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A casa do compadre José já estava arrumada, dentro toda caiada de branco, por fora de amarelo. No chão, folhas verdes de pitanga, cheiro forte e agradável. Sempre quando tinha festa, o chão da sua casa não faltava esse cheiro. Ele dizia que “o cheiro dá boas vindas”, uma tradição sertaneja.
A sala com móveis simples; seis cadeiras, um sofá de madeira de lei, sem forro. Uma mesa redonda de madeira baixa de tripé, com um jarro de barro cozido sobre flores do campo. Um retrato do casal com moldura oval, preso na parede. Ao passar no pequeno corredor interno, observam dois quartos, um do casal com cama, guarda roupa, pequena cômoda, espelho e uma moringa com o copo emborcado no gargalo de barro cozido, trabalho cerâmico da região. No outro quarto, cama de solteiro arrumada guarda roupa de solteiro, pequena mesa e um banco de madeira agreste. Este quarto está sempre vazio, esperando o filho retornar da cidade grande.
Na cozinha, dois purrões grandes, moringas grande e pequena, talha, tudo em cerâmica.Todos esses vasilhames contém água de beber é para uso geral. Lenha para o fogão, comida e tempero verde em panelas e gamelas de barro cozido.
O casal veste-se as melhores roupas, eram tão limpas que pareciam que o pó fugia delas há muito tempo e bem engomadas. Isso é tudo de necessário para a família de José e Mariazinha irem á festa de hoje de Nª. Sª da Piedade, na igreja matriz, no largo do Arraiá do Bom Cabrito. Ouviam-se de madrugada os estampidos dos fogos. A festa já começou. A igreja estava enfeitada de flores de papel colorido, pano e folhetas, armadas pelas moças da região. Vieram os músicos contratados, eram negros mestres em músicas, ficavam no coreto. As novenas nunca tinham sido bem entoadas, nem a igreja se vira assim tão enfeitada. E neste domingo, a praça da paróquia mais enfeitada ficou de bandeirolas em cores a cruzar no espaço. Veio o padre a fazer missa e cantorias no largo festivo. À tardinha houve desfile de procissão, e à noite queima de fogos de artifícios. Tudo ali foi movimentado com muita alegria e o povo a sorrir. No adro da igreja, muitos fiéis se exprimiam, no pátio em frente á igreja, havia barracas de rifas e sorteios com muita gengibreira, bebida forte de cachaça, gengibre e frutas ácidas da região.
Todas as casas estavam com portas e janelas abertas, convidando a qualquer pessoa a entrar para comer e beber sem muita cerimônia. A palestra, a dança, tudo isso se fazia ouvir de longa distância à noite festiva. Só ao nascer da manhã é quando o povo recolhe para as suas casas e novos planos para o ano seguinte irão ser comentados em reuniões na igreja. Quando se trata de festa no Arraiá as contribuições são espontâneas, feitas com muita antecipação. O povo é mais unido, cada um quer fazer o melhor para a festa da padroeira.
Ah! Que saudade matadeira... Fica remoendo dentro da gente, como se fosse espinho de mandacarú espetado na mão. Oh! Sertão do agreste, sertão danado de terra seca e rachada do sol escaldante quase o ano inteiro. Passamos o ano todo a fazer poços e juntar água da chuva pra não ter que morrer de sede. Da terra sai o filho triste para a terra distante com esperança no peito de retornar sorrindo á famílias querida. Sempre ao relembrar da terra ingrata os olhos molham dágua dos fatos vividos, como a narração acima.
A festa do sertanejo, não precisa de mesa farta e nem ter casa bonita. Basta o visitante ser bem recebido na porta com sorriso e aperto de mão amiga com palavras de Boas Vindas.
Álvaro B. Marques
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