sexta-feira, 21 de maio de 2010

DEPOIMENTO DE UM CELIBATO


Faz longos anos que não lemos e nem ouvimos contar, caso como esse em que discrimino. Não citarei nomes, para não haver comparações com outros casos semelhantes, nem mesmo para si crer numa mera coincidência.

“ Nasci da união de duas famílias extremamente católicas, ricas e poderosas na cidade. Na época em que a religião católica dominava à mente e os governantes. Cresci no ambiente rígido e achavam que o diabo era a causa de tudo que acontece com a gente. E os santos eram os salvadores de tudo. Já bem pequeno, participava de todas às missas como sacristão,na igreja matriz. Já sabia que meus pais tinham reservado para mim o sacerdócio e para os meus irmãos homens o Magistrado. Atitudes tão comuns na vida de portugueses radicados no Brasil.

Eu tinha uma atividade intensa, no colégio e em casa tinha aulas de latim e preparação à Teologia com um professor padre. Eu não sabia o que era brincadeira de infância, os estudos absorviam todo o meu tempo.

Até que um dia, o padre meu professor, em conversa disse-me: Quer ser padre ? Eu respondi: Tenho escolha ? Ele respondeu ? Só depende de você e de seus pais. Ele acrescentou... O padre tem que ter uma reputação ilibada. Seus sentimentos religiosos devem ser sinceros e profundos; sua piedade autêntica, homem de fé ardente. Padre com verdadeira vocação é acima de tudo, celibato convicto até a morte.

Padre, não sei ainda se tenho vocação para o sacerdócio ou qualquer profissão. Se depender dos meus pais já tem à escolha, para eles, ter um filho a serviço de Deus é muita honra, uma benção. Todas as famílias do nosso meio almejam ter um parente na igreja, é um orgulho, vaidade religiosa. Fui o escolhido, por ter segundo meus pais, um temperamento calmo e organizador já aliado à fé familiar. Assim, creio dedicar ao sacerdócio para servir a Deus.

Aos dezesseis anos, fui levado pelo padre para estudar e dedicar inteiramente à classe superior em Teologia no Convento de Santa Tereza na Bahia – Seminário. Comecei a estudar a “contemplação infusa e experimental do mistério de Deus, manifesto no Cristo e na igreja. Os elementos dogmáticos desta mística dividem-se em ordinários e extraordinários. E a Teologia e moral, e dons do Espírito Santo incorporado no mistério; a base psicológica que consiste na experiência desta incorporação; produzida pelos ritos sagrados e reflexões. Pela intensificação maior do amor à igreja, ao Cristo, e ao Pai. São elementos extraordinários as visões, revelações, estigmatização, êxtase, etc. Faz do religioso um adepto.

Foram cinco longos anos de sacrifícios, dedicação e amor. Ao longe de queridos meus. Só no silêncio da minha cela às lágrimas e orações fazem companhia ao meu corpo. Foram várias noites que o corpo não sentia o sono, minha mente sempre estava em confusão, em atrito com idéias de homem normal, em choque com o ensino ortodoxo da religião. Em dados momentos, queria a liberdade de pensamentos e a força do meu interior na fé, tão sedimentada em Deus, impedia qualquer atitude contrária.

Queria ser padre, não desejava ser como os que se relaxam em costumes fáceis, tendo amásias: queria ser padre de verdade, vivendo na maior pureza. Criou-me para vencer o mundo, a carne, o diabo. E aos exercícios espirituais e devotos, místicos do grupo. Dediquei com disciplina, isto é, chicoteando-me com o terrível açoite de tiras de couro com pregos nas pontas; e contava até o assoalho da sala ( onde se achavam vários outros a fazerem os mesmo sacrifícios ) às vezes salpicado de sangue.

Mas, não era visto com bons olhos pelos outros padres. Achavam esses que o grupo praticava a mediocridade, davam-se o corpo em dores para suprimir faltas graves, diziam: “ eles se mutilam por prazer” na verdade, esses que dizem a zelar a ortodoxia da doutrina ou repelem a aventura das novidades, esquecem que a fé tem vários sentidos. São heterodoxos os que pensam assim? A exaltação própria dos místicos faz tocar, com facilidade as fronteiras da heresia.

Oficializaram-me sacerdote, deram-me uma igreja. A convivência com pessoas de várias classes sociais foi despertando-me sentimentos e pensamentos diferentes aos quais tinha aprendido no Convento. Qualifiquei em comparações exclusivas. Tinha uma vida livre, mas alicerçada em dogma do catolicismo não podia fugir de regras básicas da vida que escolhera. Tinha que ser fiel para merecer a Deus e respeitar os juramentos eclesiásticos. Foi o que fiz, mas não era feliz. Lidando dia a dia com pessoas em situações desesperadoras, compreendi que havia uma grande distância entre a igreja e o povo. Eu representava o remédio e não a cura. Para curar minha chaga, teria que curar primeiro a chaga alheia. E esse poder eu não tenho. Fiz o que poucos fizeram e faço o que muitos não fazem. Contribuo materialmente para muitos que realmente necessitam e também com orações para os corações aflitos terem esperança em dias melhores. Mesmo com todas essas obrigações cristãs, ainda não mim sentia feliz. Faltava-me algo em sentimento, uma complementação do ser humano. A concupiscência assaltava-me em momentos de solidão. Procurava ávido fugir em orações e muitas vezes recorriam ao sofrer na carne com penitências rigorosas com açoites. As tentações apareciam dentro e fora da igreja. As confissões que ouvia de mulheres solteiras, casadas e viúvas excitavam-me ao ponto de chegar ao êxtase, e logo em seguida o arrependimento cruel. Foi em uma dessas crises de pecado e luxúria que apareceu uma mulher em genuflexo no confessionário. Com véu negro na cabeça, cobrindo o rosto e exalando um delicioso perfume embriagador no cubículo. Sua voz saía lenta e pousada as palavras soara belas e ardentes. Falou da sua viuvez de mulher sem filho e o desejo infinito de ser mãe. Da falta do marido e as noites ardentes do corpo sequioso de prazeres. Dizia que esses pensamentos erram pecaminosos e pediu para que eu lhe absorvesse desses pecados. Recomendei fazer várias penitências em rezas e jejuns necessários.

Mal sabia ela que suas revelações acenderam um vulcão adormecido dentro de mim.Ah! como a carne é fraca!...como somos fáceis de sermos mobilizados como jogo de xadrez nos caprichos da natureza humana.

Olhei mais uma vez, pelo visor vazado do confessionário para ver de novo o rosto da mulher. Não dava para ver direito, sua cabeça estava baixa e o véu negro impedia de ver o rosto inteiro. Mas, pelo timbre de voz, percebi que era jovem e culta suas afirmações levaram-me as curiosas indagações. Porém, nada perguntei. Levantou-se e saiu para dar lugar a outro confessor.

Passou-se uma semana. Logo era domingo, como sempre, após a missa, vou ao confessionário. Confessaram mais ou menos dez fiéis e a última foi á mesma mulher, usava o mesmo perfume. Pediu-me sua benção, “ senhor padre, minhas preces não foram ouvidas, fiz como o senhor mandou. O jejum também foi quebrado e a minha ansiedade sexual não passou. Continuo com o mesmo fervor, o que devo fazer? Ruborizei-me com essas palavras e acrescentei. És jovem, deves casar novamente, nada poderá ser contra. Recomendei novas preces e rezei suplicando a Deus a sua misericórdia. Ao terminar, abri à porta do confessionário e deparei com a mulher de véu preto e roupas negras. Assim que ela me viu, levantou o véu e mostrou um rosto jovem e belo. Estendi à mão e ela ajoelhou-se e beijou-a. É um gesto normal que todos os fiéis fazem quando se aproxima de um padre.Mas esse beijo, senti uma especial atenção. Reservei, apresentei-me. Pelo visto ela não mim conhecia e disse-me: Pensei que o senhor era idoso. Conversamos sobre a igreja até a porta de saída. Nada foi dito sobre o assunto da confissão, mesmo porque é segredo inviolável, despedimos.

Na solidão do meu quarto, rezo e imploro a Deus que afaste às tentações do pecado, da sede da carne, do fervor da natureza. Peço fortalecer o que eu imagino fraco e perdido. Mas, na hora de dormir, o rosto de mulher rouba meu sono e aflora a minha concupiscência. É ela, a mulher das confissões. Oh! Deus dos martírios, para ti servir e amar tenho que sofrer na carne o que a natureza pede. Tenho que tapar a visão, o ouvido e negar toda à sensibilidade do corpo. Fiz voto de castidade, não posso viver como homem reprodutor que têm o direito de multiplicar sua espécie. Minha vida é e será consagrada definitivamente a Deus e só a Deus servirei.

Essa foi a minha decisão e dias depois, recebi na igreja um menino que veio trazer-me um recado da viúva, na realidade um convite para a festa do seu aniversário. Fui com o dever de um pároco a serviço da comunidade. Ao chegar fui bem recebido por todos e ela em certos momentos, insinuava-se para mim, provocante e lascivo. Procurei a companhia de outras pessoas para fugir daquele assédio.

Poucas horas fiquei naquele ambiente de risos e gargalhadas, um ar viciado de fumo e fantasias. Rostos pintados em demasia, parecendo carnaval. Saí do inverno, para ir de encontro ao silêncio do meu quarto.

Fiz cartas para meus superiores, pedindo a minha transferência para qualquer cidade do interior. Levaram mais de três meses para eu receber as respostas. No meu lugar veio um padre italiano, bem mais ortodoxo.

Nesta pequena cidade, tudo era calmo e simples. O povo vivia da lavoura, a comunidade tinha um seleto número de pessoas católicas e outra maioria Presbiteriana. Para se ter uma idéia da rivalidade religiosa, ambos não se toleravam ao ponto de não haver laços consangüíneo. Mesmo assim, procurei aumentar a paróquia sem haver atrito no lado Presbiteriano. Mostrei o lado sensato de viver com fundamentações essenciais e assim fui construindo uma nova morada.

Sei que às tentações são reveladoras e se encontram em qualquer lugar. Mesmo nas pessoas e lugares que nos parecem invioláveis. Procurei controlar-me e a preencher todo o meu tempo em trabalhos e cansaço na mente, para dormir. Isolei, quanto mais fossem os impulsos carnais, para não ter que fraquejar em momento algum. Continuei no firme propósito de amar e servir a Deus.

Hoje sou mais feliz, do que no início da minha carreira. Eu tive que construir um muro de lamentações para chegar até aqui, com mais firmeza em meus ideais. O amor consagra às virtudes e elimina às imperfeições. Graças a Deus, atingir um equilíbrio no corpo e na mente, tudo agora é a continuidade do trabalho espiritual.”

Assim encerra a narrativa exclusiva de um homem sacerdote, confesso, na pura verdade de seus sentimentos mais secretos. A religião é para todos, mas nem todos seguem a religião. Para ele, o confessor-padre, é um caminho seguro, seus objetivos é amar a Deus sobre todas as coisas, é revelar cada vez mais as palavras de Jesus Cristo a seus fiéis. É um verdadeiro pescador de almas. É manter-se fiel a promessa que fez diante da imagem de Cristo. É saber amar o próximo e servir a Deus.

Suas firmes determinações são exemplos para aqueles que querem servir e ser sacerdócio. A porta da casa de Pedro estará sempre aberta para os verdadeiros cristãos. Bem Vindo Seja.

Álvaro B. Marques

SSA, 16.12.2006

Um comentário:

  1. Crescei-vos e multiplicai-vos...
    Acha mesmo que ganhará a simpatia de Deus só pelo celibato? Não ficaria Ele mais contente, que ajudasse às pessoas, mesmo que para isto fosse um homem simples e comum?
    Pobre igreja católica e seus dogmas...O que realmente importa é a santificação do sexo, atendendo sua finalidade no equilibrio harmonico da criatura. Se fosse algo maligno, então Deus, não teria inventado.

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