terça-feira, 25 de maio de 2010

PAIXÃO COMPULSIVA


O frágil corpo carrega a compulsão e demonstra a expressão inocente de toda a sua figura. A cabeleira loura, levemente ondulada. Devia ter uns 25 anos e o vício nele era um acidente.
A treva e a luz, o nada e a existência, lutavam nele, produzindo aquele complexo de beleza gracioso e de horror. O jovem lembrava um anjo desgraçado, sem luminosidade. Seus pensamentos estavam aliados no jogo do baralho, na mesa redonda em que se achavam dois ou mais companheiros. No ar, também viciado do fumo e do álcool. Os momentos, fora dessa vivência eram poucos e quase sempre repetitivos. O viver da ilusão para ele é esse ambiente saturado e mesquinho, aonde a compulsão fala mais alto do que às necessidades básicas de uma boa alimentação que não faz. Tem boa cultura, sorriso largo e falas mansas. Jamais passa o menor nervosismo fora ou dentro daquela atmosfera brilhante da decadência humana, a sala do jogo. Esquece por completo a vida que tem lá fora, trabalho, família, filhos, amigos e etc. Transforma-se no escravo do vício que domina todo o seu ser. Faz chorar viúvas e órfãos na implacável sede de ganhar ou perder. Mas, nenhum desses argumentos fatais convence o acelerado jogador. Sempre ao perder cria uma nova ilusão de ganhar na próxima partida.
Tudo que tem de bens matérias é perdido na mesa verde do confrontador e sempre volta na esperança da sorte. Até que a miséria vence o perdedor.
Assim viveu Astério na consumação dos seus dias, não tinha mais nada para oferecer ao vencedor. Tira-lhe a vida como o único recurso de pago, a vergonha e a humilhação imposta pelo vício credor. É uma das desgraças que a humanidade absorve rapidamente no cálice das ilusões que a vida oferece. Neste caso não é a fama e nem o poder da fortuna que eles (viciados) procuram. É a satisfação de estar ali participando do desejo mórbido que gera na emoção do risco de perder ou ganhar. É a força destruidora do vício da ambição que corrói os mais sinceros desejos humanos. É muito difícil o viciado ficar livre dessa doença. Pós não há remédio que cure, não a definições lógicas para converter. Somente a doença impõe uma trégua no corpo, caso não seja grave e si for grave, leva com a morte o vírus. Não há viciado ganhador constante, mas existe perdedor consciente. Os demais assistem no palco a desgraça alheio.
Álvaro B. Marques
SSA,26.12.2009

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