1ª CENA
Calú:- Meu amo, inda qui má lhe pergunte, adônde é o quarto de vamincê?
Badú:- Meu quarto inté agóra é aquelle (aponta).
Calú:- E vamincê não gosta de companhia na cama, não, meu amo?
Badú:- (levantando da cadeira, espantado) O quê, rapariga?... O qui foi mesmo qui você disse?...
Calú:- Não foi nada de má, não senhô. Eu tó perguntando si meu amo não gósta de companhia na cama?...
Badú:- (Em tom grave) Você ta de arrelia cumigo, rapariga? Me arréspête.
Óviu? Me arréspête! Eu só um home de barba branca na cara, e demais a mais só um home casado! Minha muié tá hi! Daônde saiu agora este disafôro? Ora você tá vendo só?...
Calú:- Desaforo não senhô, meu amo. Sua negra não sabe de nada não! (benzendo-se) Crédo!... crédo!... Ave Maria!...Foi minh’ama qui mandô préguntá...
Badú:- (com grande admiração, espantado) Sú ama? A comadre?...
Calú:- Sim, senhô. Foi Ella qui mandô.
Badú:- (passeando na sala, agitado) Não é possive, não é possive!...(zangado) negra! Negra de uma figa! Tu inda tem o atrévimento de dezê qui foi tua ama qui mando, nega desavergonhada!... Já daqui p’ra fora!.
Calú:- Te descunjuro!... Crédo...Crédro...(sai de cena).
2ª Cena
Lálá, que é que tem compadi? Está zangado? Qui lhe aconteceu?
Badú:-(disfarçando) Nada!...cumade... não foi nada!...
Lála: diz home estás calado?...
Badú:- Home, quá, ocês sabe qui eu não metto roia na boca; só tabaréu, e basta! Após bem! Só entendo de pão, pão, guêjo, guêjo!...
Lálá: Já sabemos, mas diga que estamos todos anciosos.
Lálá:- Diz fala cumpadi, diz logo de uma vez.
Badú:- Após então, lá vai. Eu tenho a dizê qui aquella negra é muito desaforada e muito atrevidona.
Lálá:- Calú!...
Badú:- Ella mesmo! É muito atrevidona!...Após não tive o desaforo de me preguntá, cumade, a me qui sempre me dó a respeitá, e que tenho barba branca na cara...
Lálá. Lelé e Tetê, espantadas diz: O que?... o que Ella disse?
Badú:- Eu tenho acanhamemto!...
Lálá:- Não se acanhe, diga.
Badú, diz: Veio me preguntá si eu não gostava de... de...
Tetê: diga Badú.
Badú diz; De companhia na cama!... isto é natura?
Tetê:- Sim senhõ!...querê fazê companhia cum meu marido na cama!...
Calú a parte da convessá, diz benzendo-se e faz sinal da cruz, e Ave Maria... Credo... Credo...Cruz...
Badú, e teve o atrevimento de dizê qui foi a cumade que mandô preguntá...
A comadre que é mineira diz: Cumpade vou explicar tudo, e rindo. Não houve nenhum desaforo de Calú, nem falta de respeito.
Badú;- Antão é natura?
Lálá:- Ouça, companhia é o nome que nós mineiras, damos a uma espécie de coxão macio, que se costuma colocar na cama, por cima de outro coxão, que é muito duro, muito áspero. Muitas pessoas gostam da companhia na cama, outras não gostam. Aqui está porque a Calú, mineira como eu, e aliás, a meu mandado fez-lhe a tal pergunta, que tanto incomodou ao cumpade. Eis tudo explicado, e agora vamos à mesa jantar, que são horas.
Tetê vai de encontro ao marido e diz: Coitado do meu santinho! Meu Baduzinho!...Tão bobinho.
Fim do ato
MEUS COMENTÁRIOS:
A HISTÓRIA ACIMA É UMA CENA DE TEATRO QUE FOI ESCRITA PELO AUTOR DO MONOLOGO, SILIO BOCCANERA JR. EM SEU LIVRO : “Mirem-se no espelho” que é o nome da peça. Reporta do século XX. Copia fiel do original, inclusive os diálogos do Português da época, linguagem do povão.
“Silio Boccanera Jr. Nasceu em Salvador, Bahia em 03 de fevereiro de 1863, filho legítimo do comendador Silio Boccanera. Italiano e d. Emilia Rodrigues Vaz Boccanera, baiana.
Silio Boccanera Jr. Foi diplomado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, desempenhou comissão no governo, e escreveu na cidade de Cachoeira. BA durante cinco anos, o cargo de Secretário da Superintendência da “Brasilian Imperial Central Bahia Ralway”
Em 1893, foi nomeado Diretor do Teatro São João. Por morte de seu pai, exerceu cargo que o mesmo ocupava de Cônsul Honorário da Espanha, no estado da Bahia (1908 a 1911) teve os mais honrosos ofícios de louvores durante a sua gestão. Foi condecorado por D. Maria e o Rei D. Afonso XIII, com a cruz de 1ª classe da ordem Militar do Mérito Naval, um dos mais distintos títulos honoríficos da Espanha pelas prerrogativas que confere dificilmente concedido a um súdito civil e muito menos a um estrangeiro. Fez relevantes serviços a colônia espanhola na Bahia.
Casou-se em 1883, com Dª Maria Leonor de Freitas, baiana, descendente de ilustre estadista Manuel Alves Branco ( Visconde deCaravelas) e vinculada ainda pelo berço, à nobre estirpe do Marquêsde Caravelas – José Joaquim Carneiro de Campos, e do grande Jurisconsulto baiano Teixeira de Freitas.
Do seu casamento, nasceram 10 filhos dos quais: Dr. Raul de Freitas Boccanera, formado em Ciências Jurídicas Sociais , pela Faculdade de Direito da Bahia. Foi Juiz de Comarca (avulso) no Estado do Rio Grande do Sul, onde exercia a função de Advocacia e foi também jornalista emérito.
Dr. Silio Boccanera Neto, formado em medicina, pela Faculdade da Bahia, exerceu a clinica na Capital Federal onde residiu. Edgard de Freitas Boccanera, Mariana de Freitas Boccanera, Ondina de Freitas Boccanera e Carolina de Freitas Boccanera. Os outros três faleceram prematuramente.
Em segunda núpcia casou-se em 1903, com a famosa artista brasileira Luísa Leonardo a soberana no piano. Descendente da nobre família dos Nassau, afilhada de batismo do nosso saudoso Imperador D. Pedro II, seu grande protetor a quem deve, por seu talento, toda a educação artística no Conservatório de Musica de Paris, de onde saiu laureada.
Escreveu vários livros sobre a Bahia e o Teatro. Trabalhos publicados e suas obras: A guerra Civil no Chile/ II vol. – Um artista brasileiro/II vol. – A Bahia de Carlos Gomes/ III vol. – O Theatro na Bahia/VIII partes (1812/1912) – Bahia Histórica – III partes. As Telas Históricas do Paço Municipal da Bahia/2 partes – Autores e Atores Baianos/III partes. – O Theatro na Bahia ( 1800 a 1923) III partes – Os Cinemas da Bahia/ II partes – Bahia Cívica e Religiosa / II partes.
Várias conferências: Theatro Brasileiro, O Centenário do Theatro S. João, O poeta Alexandre Fernandes, Castro Alves na vida e na morte.
Trabalhos em jornais e autor de várias peças teatrais.
Faleceu em 31 de agosto de 1928 em Salvador/BA.
(Fonte do livro: “ Autores e Atores” de Silio Boccanera Jr.)”
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